Segunda-feira, Junho 29, 2009

Tidevoro

Reservo uma sexta-feira para matar saudade de amigo querido, mas penso nos meninos e ela me come um braço. Trabalho bem duro, penso na monografia e ela me come a perna. Vou para a biblioteca, penso na internet pululando de notícias e ela me come um olho. Saio para fazer os soldes, penso na conta bancária e ela me come as unhas. Bebo cerveja e quero preguiçar no sábado, mas os pequenos pedem parque e ela me come o estômago. Compro um carro e quero alugar outra casa, mas penso nos meus pais e ela se lambuza com minhas veias e artérias como se fossem espaguete ao sugo.

Lembro de um livrinho bilíngue, o primeiro da minha vida. Eu tinha preguiça das letrinhas todas em inglês ou talvez fosse a história que, mesmo em português, me deixava agoniada. A menina morria de tédio e precisava prender três monstros coloridos dentro do armário: o desânimo, a inveja e a culpa. Os dois primeiros ela conseguiu. Mas a culpa tomou fermento e devorou a menina inteirinha no café da manhã.

O final não era assim, claro. Mas depois foi.

Terça-feira, Junho 23, 2009

Alteridade

Ai, a moça arrumada, trabalha na certa em um grande escritório de moda, ou no mínimo em uma revista badalada – e eu aqui, de chinelo e livros.

Ai, a mulher despreocupada, sentada no banco com todo o tempo do mundo, ela vê o tempo passar e ele é gentil – e eu aqui, olho no relógio.

Ai, o cara apressado, mil clientes esperando, ou vende ações ou compra ações, e no final do mês não precisa fazer contas – e eu aqui, nem trabalho.

Ai, as meninas engraçadas, rindo de si mesmo e das outras, combinando a jaqueta de couro e o fim de semana – e eu aqui, com trinta e uns e uma prole de dois.

Ai, o homem arrogante, o olhar lancinante, as poucas palavras, o jeito assertivo – e eu aqui, tradução encarnada da palavra serviable.

Ai, a mocinha com seus livros, todos os livros do mundo, caminho da biblioteca na certa, indo escrever minha monografia que já deveria estar pronta – e eu aqui, comprometida com o trabalho até ser amanhã.

Ai, aquela senhora, a sabedoria que segura a mãozinha da neta, nem uma gota de ansiedade no meio do olho azul profundo, a calma de vestido vermelho com folhinhas verdes – e eu aqui, um poço de dúvidas.

Ai, a turminha de seis ou sete, empilhados aos dois ou três, preocupação zero na vida, lembrando do passeio no parquinho, desobedecendo a professora histérica – e eu aqui, quase mais ela do que eles.

Ai se um dia eu fosse o outro, essa mistura alucinada de todos os outros – ia me olhar no metrô, quietinha, e querer muito ser eu mesma.

Sexta-feira, Junho 19, 2009

O vestibular do cocô

Dia primeiro de setembro, quando os meninos completam três anos, será o primeiro dia deles na escola. Será o primeiro grande encontro da geração parisiense 2006: os poucos que já frequentavam a creche desde pequenininhos vão passar conviver com todos os outros que frequentavam o jardim de infância algumas vezes por semana e com os pequenos que até então ficavam em casa, com seus pais ou babás. De repente, todo mundo vai estar junto, em turminhas de 25 alunos que vão aprender um montão de coisas legais.

Só que, na França, para entrar na escola não pode usar fralda.

É uma regra. A criança de três anos tem que saber fazer xixi e cocô no penico. Quer dizer, tem que, se quiser ir a escola. E é claro que eles querem ir à escola. Os meninos adoram o jardim de infância. Domingo cedo a gente se prepara para ir ao parque e lá estão eles pedindo as mochilas. Adoram os coleguinhas, as professoras e vão amar a escolinha.

Só que eles ainda não fazem xixi e cocô no penico.

E eu fico revoltada com essa pressão. Acho uma violência impor um parâmetro como esse a pequenos de três aninhos. Um desrespeito com o ritmo psicológico e até biológico de cada um. Não têm nem três anos e lá está a escola exigindo que eles provem o que sabem. Bem a cara do sistema escolar francês. Ninguém merece o vestibular do cocô.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Manifesto contra a chantagem emocional

É incrível a naturalidade com que tantos recorrem a esta prática, como se fosse nada, como se fosse normal ou certo extorquir uma criança para conseguir sua atenção. Me faz querer empenhar uma campanha com pretensões mundiais pela abolição da chantagem emocional a que nos submeteram, e a que hoje submetem nossos pequenos assim, debaixo dos nossos narizes. Proponho incluir na declaração dos direitos da criança um montão de cláusulas proibindo essas manobras malignas dos adultos que pretendem se fazer ouvir, ou ganhar um carinho, ou ser obedecidos, oferecendo em troca a ameaça infame de faltar com o amor.

Fica proibido dizer: “se você não fizer, titia vai ficar triste”. Fica proscrita a ameaça: “pára de chorar senão a mamãe vai embora”. Fica abolido o lamento pegajoso: “é assim que você faz, né?, depois de tudo o que eu fiz por você”.

Tudo o que a chantagem emocional consegue é criar um adulto necessitado do outro para se chancelar. Que vai sempre se desdobrar para não magoar, não chatear, não decepcionar.

Fica decretado que toda criança tem o direito de crescer ouvindo bem o contrário: que a mamãe não vai embora, não, filho. Nunca. O que não impede você de se comportar assim mesmo – que se a gente se entende, a gente se diverte muito mais. E sem cicatrizes na alma.

Terça-feira, Junho 16, 2009

A aventura de viajar com os pequenos

O Renato tem um blog muito legal sobre viagens, que ele escreve a várias mãos com um monte de gente que gosta de viajar. Há muito tempo eu prometo pra ele escrever um texto sobre nossas várias viagens com os pequenos. E agora, finalmente, eu cumpri.

Está bem aqui, ó.

Quarta-feira, Junho 10, 2009

O caso das bics

Jornalista que é jornalista nunca compra caneta: rouba. Não é mal-caratismo. É simplesmente sobrevivência. Todo foca compra caneta no começo. Canetas lindas, aliás, para fazer bonito na frente do entrevistado. Mas com o tempo, de tanto ser roubado pelos colegas, o jornalista desiste e entra para o crime.

Claro que há vários graus de criminosos nesta seara. Faço parte do tipo mais leve, fiel a um código de conduta rígido, de acordo com o qual só bics podem ser roubadas. Bics e canetas de propaganda, tipo “Retífica do Raimundo”. Totalmente roubável. Quanto mais ordinária melhor: se estiver sem tampa e sem a bolinha de plástico do fundo, perfeito – crime sem provas com sensação de pecadinho venial. Roubar canetas especiais, bonitas, de ponta fina, definitivamente é coisa de gente sem escrúpulos.

Acontece que eu agora não trabalho mais numa redação, mas dentro de casa. Não há colegas por perto. Só posso roubar as bics do Beto, o que me coloca numa posição facilmente denunciável. Outro dia as canetas dele chegaram em casa com um papelzinho escrito “Alberto” pregado com durex. Coisa de bancário, fala a verdade.

Pior que isso é a concorrência do João e do Pedro. Eles têm um estojo com 479 canetinhas coloridas. Mas adivinha com qual caneta eles preferem fazer os desenhos deles? Com as minhas, claro. Que têm o papelzinho “Alberto” mas que, agora, são minhas.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Guess what?!

Adivinha quem voltou? Minha máquina!

Não aquela, que aquela não teve conserto. Uma outra, que a garantia me deu. Mais zoom, mais modos, mais megapixels, embora eu já não soubesse o que fazer com todos aqueles que eu tinha. Domingo saí fotografando tudo. Testando o foco automático nas gotinhas de chuva. Fazendo flagrantes dos dois meninos mais lindos do mundo. Delícia, delícia.

Mas, ops: olha aí, eu falando de coisas. Tsc, tsc.