Terça-feira, Dezembro 22, 2009

Presente de Natal

Poucas vezes eu sinto vontade de voltar pra casa.

Casa é uma palavra com vários sentidos, e o mais usual pra mim é o Beto e os meninos, onde quer que eles estejam. Mas naquela frase ali casa quis dizer Brasília, a cidade que não sai de mim, que eu amo profundamente mas para onde eu (ainda) não quero voltar.

A chantagem emocional que alguns seres amados insistem em fazer sobre a minha pessoa me toca mas não me dobra - eu aprendi a amar quem amo sem sufoco, sem urgência, sem controle, sem apego. Aprendi a esperar a vida dar suas voltas.

Mas existe uma pessoa capaz de fazer minha saudade ficar concreta, de presentificar a vontade de voltar lá para de onde eu vim. O nome dela é Usha Velasco, e eu a recebi das mãos de um querido amigo.

O site da Usha é meu presente de Natal para você. É um site sobre Brasília mas poderia ser sobre qualquer cidade que se ama. A prova de que a poesia não está em Paris nem em canto nenhum do mundo - está dentro do poeta.

Que venha 2010, com boas notícias, com pôres-de-sol de Brasília e telhados cobertos da neve de Paris. Com o quentinho de um abraço apertado com o cheiro da sua casa - em todos os sentidos que a palavra possa te despertar.

Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

Efêmera como a neve

O mais legal da neve em Paris é que não é todo dia.

E eu não digo isso só como a brasileira não plenamente adaptada às baixas temperaturas. Digo também como a brasileira que pouquíssimo viu neve na vida - e que se encanta quando vê.

Deve ser muito difícil se deslumbrar com a neve no Canadá, na Groenlândia e nesses outros países que a gente só conhece do tabuleiro do War. Lá todo mundo está cansado de ver neve, e a chance de se passar por caipira deve ser gigante.

Aqui, não. Aqui, a gente pode ficar parado olhando que nem um bobo, chamar as crianças pra fazer boneco de neve, fazer guerrinha. Pode até descer pra tirar foto na neve que tudo bem. Tudo bem mesmo. Todo mundo está - mais ou menos explicitamente - fazendo a mesma coisa.

E tem que fazer mesmo. Porque amanhã ela já não está mais lá - e a vida, vocês sabem, não gosta de esperar.

Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

A vida é tão rara

Não é?

Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

A few of my favorite things

Primeiro a gente era completamente refém da sessão da tarde. Tinha que ficar de olho nas chamadas de programação pra ver quando ia passar de novo, anotar, uma lembrar a outra pra não perder. Até que alguém teve a ideia de gravar no vídeo-cassete - propagandas incluídas, que remédio.

Daí aconteceu o que, descobri ontem, acontece até hoje em cada casa cheia de criança. A gente assistiu Noviça Rebelde até a fita furar. Até decorar cada fala, cada nome complicado, Liesel, Grettel, e eu durante anos quis ter uma filha chamada Brigitta. E, claro, até saber todas as músicas de cor.

Daí que quando eu vi que ia rolar uma ópera do filme aqui em Paris, eu comprei de impulso. Vi depois que comprei de impulso pro mesmo dia do show do Paul MacCartney, o que fiquei me lamentando por semanas. Até ontem. Tipo não dá pra me lamentar mais, depois de ter me embasbacado com a orquestra e os cantores, a cenografia e a concepção, de ter chorado da primeira à última música.

Eu fui parar dentro de um dos mais importantes filmes da minha infância, só e exatamente isso. Fiquei de cara de ver gente de três a oitenta anos, adolescentes, coroas, gente tipo eu, vozes de mil idiomas diferentes, o planeta inteiro unido pela mesma sessão da tarde. E nunca senti tanta falta daquelas três com um prato de brigadeiro no meio.

PS: A peça é em versão original em inglês, num dos teatros mais antigos e importantes da cidade, e ainda tem ingressos. Imperdível, no mínimo, e pra ver um pouquinho o caminho é por aqui.

Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

Callada

Ia começar toda empolgada dizendo a Lygia que me perdoe, contando do meu mais novo livro da vida, uma traição imperdoável, uma paixão arrebatadora, mas pesquisando a foto pra ilustrar meus arroubos esbarrei numa crítica tão sincera de um leitor esforçado que me deixei levar. Não pela crítica, claro - perdoai, senhor - mas pela inutilidade de ficar falando falando de um livro muito bom quando o critério é tão pessoal.

Então não vou falar do livro, vou falar da orelha.

Uma declaração de amor da mulher dele. Explicando com amor e cuidado o método de trabalho do cara. De como ele colecionava artigos de jornal que serviam de argamassa pros romances, depois escrevia, escrevia, escrevia em cadernos espiralados, depois batia tudo à máquina, numa rotina solitária que, ela conta, só podiam ser interrompidas por motivo que valesse a pena, como anunciar ao outro que um beija-flor chegava à janela ou que a lua cheia já estava visível.

Vou falar da carta manuscrita enviada por ele ao editor e publicada na primeira página do livro, e que explica, a meu ver, a edição tão porca, tão cheia de erros, que a Nova Fronteira tem o descaramento de publicar.

O autor comenta pequenas correções que gostaria de ver publicadas nas novas edições do livro e finaliza: "Veja, por favor, que elas (as correções) sejam feitas na próxima impressão do livro. Não haverá outras. Eu, pela parte que me toca, não pretendo reler o livro inteiro nem que a justiça me condene a fazê-lo". Era uma mentira desvairada - ou uma verdade involuntária, visto que ele morreu um ano depois da carta. Mas o editor pelo jeito acreditou.

Termino falando rápido da última frase do livro, ou a frase depois da última frase. Depois do ponto final, a inscrição "Rio - Petrópolis - Fazenda de Santa Luísa, março de 1965 - setembro de 1966", me fez viver com ele os dias de gestação dessa obra-prima, respirar seus toques na máquina de escrever, uns duzentos dias antes de eu chegar ao mundo.

Terminaria melhor sem a propaganda, mas não resisto não: eu nunca vi o Brasil tão de perto. O Brasil e o brasil, os Brasileiros e os brasileiros. Quarup, Antonio Callado.

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

O lado bom

Sou otimista por parte de pai e desconfiada por parte de mãe, mas num cenário de desilusão profunda como o que minha cidade está vivendo preciso me agarrar à veia paterna para não ter um treco.

Daí que ao invés da lama quero falar da esperança - da felicidade que tenho ao ver a Câmara Legislativa de Brasília ocupada.

O que posso dizer eu, que nunca coloquei o nariz vermelho e a cara pintada na rua? Que eu sou uma covarde política. Uma indignada de mesa de bar. Uma acomodada entusiasmada com os estudantes de hoje, que lavam a honra da minha cidade no meu lugar - e é com uma mistura de vergonha e orgulho que eu falo.

É lindo ver Brasília mostrando que não é só gabinete - é também juventude muito brava, capaz de encarar segurança burocrata e pintar cartaz escrito Câmara Democrática na parede daquele antro. Juventude que quer mais é matar aula, pode ser, mas quem mata aula na Câmara e não no shopping merece meu respeito.

Quero dizer que o ato não é isolado: meses atrás, em repúdio ao caso Geisy, o pessoal da UnB tirou a roupa em pleno campus - pode até não fazer muito sentido, mas é uma reação (e uma reação engraçada!). Sem falar no acampamento que eles fizeram no ano passado, exigindo a retirada do reitor corrupto.

Eu não devia escrever esse último parágrafo, mas escrevo: o mais legal ainda é que não me lembro de nada parecido acontecendo, por exemplo, num certo Rio de Janeiro tão corrupto quanto Brasília. Sinceramente, acho que se essa palhaçada fosse na Cinelândia ia juntar muita gente pra pedir mais um coco na praia ou mais uma rodada de chopp no Leblon - pra poder se indignar bastante sem sede. Tipo eu sempre fiz.

Sorte de Brasília com seus novos estudantes.

Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

Cheiro de tangerina

A personagem lygiana Lorena tira a maior onda de sua amiga Lia porque ela escreve num livro que em dezembro a cidade inteira cheira a pêssego. Pois eu digo sem medo de ridicularias vindas de uma personagem fictícia qualquer que Paris em dezembro cheira a tangerina. É época, e como as pessoas gostam muito de tangerinas e como tangerina é uma fruta danada pra deixar cheiro, há um cheiro de tangerina onde quer que se vá: no metrô, numa exposição, no salão do livro.

Isso para contar a história da foto acima. Supermercado, setor de sucos em caixinhas, voltada para o público infantil. Algum espírito espirituoso achou de deixar um montão de tangerinas - modelo natural, embalagem alaranjada, design único e inimitável com gomos individuais, assinado por Deus - bem no meio do estoque de caixinhas. Garanto que não foi o próprio mercado que o fez, foi alguém. Alguém que deu um recado muito bem dado.

Não que eu estivesse prestando atenção, assim, especialmente interessada pelo setor de sucos em caixinha. Confesso que levei para casa bem mais tangerinas que eu inicialmente previa.