
É incrível a naturalidade com que tantos recorrem a esta prática, como se fosse nada, como se fosse normal ou certo
extorquir uma criança para conseguir sua atenção. Me faz querer empenhar uma campanha com pretensões mundiais pela abolição da chantagem emocional a que nos submeteram, e a que hoje submetem nossos pequenos assim, debaixo dos nossos narizes. Proponho incluir na declaração dos direitos da criança um montão de cláusulas proibindo essas manobras malignas dos adultos que pretendem se fazer ouvir,
ou ganhar um carinho, ou ser obedecidos, oferecendo em troca
a ameaça infame de faltar com o amor.
Fica proibido dizer: “se você não fizer, titia vai ficar triste”.
Fica proscrita a ameaça: “pára de chorar senão a mamãe vai embora”.
Fica abolido o lamento pegajoso: “é assim que você faz, né?, depois de tudo o que eu fiz por você”.
Tudo o que a chantagem emocional consegue é criar um adulto necessitado do outro para se chancelar. Que vai sempre se desdobrar para não magoar, não chatear, não decepcionar.
Fica decretado que toda criança tem o direito de crescer ouvindo bem o contrário: que a mamãe não vai embora, não, filho.
Nunca. O que não impede você de se comportar assim mesmo – que se a gente se entende,
a gente se diverte muito mais. E sem cicatrizes na alma.